Sabemos que nos primeiros meses de vida de um bebê, o sono é bem instável, pois ele está amadurecendo e ainda aprendendo a dormir. Com o tempo, o sono pode estabilizar ou piorar – e o que define isso é a forma como os pais conduzem o sono dos pequenos nesta fase.

Porém, dormir é tão essencial quanto comer. E, se a privação de sono em adultos é algo difícil, em crianças se torna mais ainda problemático, porque elas precisam do sono para se desenvolver. 

Com o passar do tempo, o bebê que não dorme bem torna-se uma criança que não dorme bem, e as consequências disso vão muito além do que os pais podem imaginar. Uma das consequências, além da irritabilidade da criança, dificuldade de concentração e até mesmo obesidade, é o impacto da privação de sono na vida escolar. 

Muitos não fazem essa relação, mas já existem pesquisas e estudos fazendo essa ligação: uma criança que não dorme bem, terá dificuldades de se concentrar e aprender e, já se discute entre os neurologistas, a relação entre a privação de sono e o agravamento de quadros de crianças com TDAH (Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade). Um estudo recente indica que cerca de 75% das pessoas com déficit de atenção apresenta dificuldades para dormir, e essa privação do sono, principalmente na infância, pode ser uma das origem do transtorno.

A falta de atenção e concentração sem dúvida é o aspecto mais claro observado por pais e professores. Um experimento canadense realizado na Dalhousie University com 32 crianças determinou que elas dormissem uma hora a mais por quatro noites e uma a menos nas quatro noites seguintes. O comportamento dessas crianças foi observado e, mesmo por um curto período, o impacto da privação de sono na memória e na atenção deles foi grande.  

As alterações no humor também é outro aspecto que deveria preocupar os pais. Precisamos passar por todos os estágios do sono para que o nosso organismo descanse bem. Quando não passamos, acordamos cansados, irritados, e a criança geralmente apresenta-se mais agitada. Em geral, os pais não relacionam esse comportamento com o sono e identificam logo como uma característica da criança. Porém, isso muda completamente quando sua rotina é ajustada.

A privação de sono está relacionada também com a baixa imunidade, algo que é de fundamental importância quando a criança inicia a vida escolar, já que vai ter contato com outras crianças e estará mais exposta. Neurologistas afirmam que um sono fragmentado atrapalha a produção de anticorpos: o corpo da criança, que já possui uma imunidade mais baixa por causa da idade, não consegue se fortalecer para combater os vírus e bactérias causadores de doenças, e isso possui um impacto na rotina escolar. A criança precisará faltar aulas, tomar medicações, e aguardar até se recuperar. Sem o sono adequado, essa recuperação se torna ainda mais lenta e o ciclo se reinicia quando ela retorna para a escola. A criança estará sempre mais frágil. 

Como ajustar o sono de uma criança para que ela se desenvolva bem e aproveite o máximo da vida escolar? Observar esses três aspectos pode ajudar. 

Estabeleça uma rotina onde a criança tenha horário para dormir e acordar: As crianças que estudam pela manhã, já possuem um horário pra acordar, devido ao horário de entrar na escola, mas poucas possuem um para dormir. Nesse ritmo, elas não fazem as horas necessárias de sono que precisam, cerca de 10 a 12 horas, e certamente esse déficit de sono vai impactar no rendimento escolar. Se a criança estuda no período da tarde, é comum que ela queira acordar tarde, especialmente se dorme tarde. E o problema aqui está relacionado a hormônios importantes que são secretados quando dormimos. O pico desses hormônios acontece antes das 23h, então nesse horário a criança já deve estar em sono profundo. Tão importante quanto ter a quantidade de horas necessárias para dormir, é dormir cedo e aproveitar ao máximo a produção desses hormônios.

Organize o dia e as sonecas: Crianças que vão pra escola possuem uma intensa carga de gasto de energia mental e física. Algumas delas precisam de uma soneca reparadora. Se forem maiores de 18 meses, em geral após o almoço. Organize o dia para que essa soneca ocorra mesmo que a criança estude a tarde. Vale a pena adiantar o almoço e se preparar para que a soneca ocorra antes de ir pra escola. Ela iniciará a rotina escolar descansada e terá um melhor rendimento. Para a criança que estuda pela manhã, a soneca pode ser feita assim que chegar e almoçar: o sono logo após as atividades de desenvolvimento que a criança praticou na escola ajuda a fixar aquilo que foi aprendido. Embora a memória de longo prazo  seja fixada em maior parte a noite, o cérebro também consolida a memória durante o dia (memória de curto prazo). Mas atenção! Essa soneca não deve ser longa, algo aproximadamente entre 40 minutos e uma hora, dependendo da idade da sua criança, para não ter impacto no sono noturno.

Seja criterioso no uso de eletrônicos: O uso de eletrônicos pelas crianças hoje é abusivo. Segundo a Academia Americana de Pediatria, para crianças até 5 anos essa exposição a telas (incluindo celular, tablet, TV, etc) deveria ser de 1h por dia. Isso porque apenas o uso das telas em si já tem um impacto negativo na rotina escolar. A criança que passa um tempo grande em frente as telas têm maior dificuldade de concentração. O prejuízo ao sono também é grande, principalmente se o uso de eletrônicos ocorre próximo à hora de dormir, ou se os eletrônicos são usados para que a criança adormeça. A luz dos eletrônicos diminui a produção de melatonina, o hormônio do sono. A melatonina é liberada ao anoitecer e a exposição à luz antes de dormir ou para dormir inibe a sua produção. O ideal é evitar esse uso o máximo possível, especialmente antes de dormir. 

Assim como a alimentação, o sono também influencia em várias áreas de nossa vida. Esses pequenos ajustes podem ser determinantes para que seu filho durma melhor e tenha não apenas um rendimento melhor na escola, mas cresça e se desenvolva de forma mais saudável, tranquila e feliz. 

Ivonete Porto, mãe do Matias e da Lúcia