A Habilidade de Dormir Bem
Cultivando os princípios de Charlotte Mason na formação de hábitos

“Dormir é um hábito que se aprende”.

Usamos muito essa frase em nossas consultorias e webinários. Mas o que isso quer dizer? Crianças não nascem prontas para dormir? Dormir não é uma necessidade biológica do ser humano? Sim. Dormir é uma necessidade biológica, porém ninguém nasce sabendo uma forma de dormir. A forma de dormir é ensinada. E na infância, uma criança aprende prioritariamente a partir da formação de hábitos.

Charlotte Mason, uma educadora inglesa clássica, defendia esse princípio. Seu método de educação tinha grande embasamento no fato de que o hábito era uma ferramenta poderosa na formação da criança. Assim como um ceramista precisa da roda para trabalhar sua argila, o entalhador precisa de uma faca para trabalhar sua madeira, os pais e educadores precisam do hábito para educar sua criança. “Hábitos são como a guisa pela qual os pais podem fazer quase qualquer coisa que escolherem para o seu filho”, afirmava Charlotte.

A maneira como dormimos desde a mais tenra infância passa também pela formação de um hábito, e isso é muito importante para a criança.

Primeiro porque a criança não tem a capacidade de se auto convencer: Não adianta apenas dizer para uma criança que é importante para ela dormir e dizer a maneira que queremos que ela durma: João, quero que você durma às 20h, no seu berço! Apesar das crianças possuirem um grande potencial de compreensão, ela ainda está em fase de desenvolvimento. A criança não tem força de vontade suficiente para fazer aquilo que ela deveria fazer, algumas dessas coisas, fundamentais para sua saúde, como alimentação e sono. Um bebê não tem a capacidade de definir como ele deve dormir, na verdade, essa é uma decisão muito pesada para ele. Charlotte Mason, afirmava que formar hábitos é preservar a criança do esforço de decisão, um esforço muito grande pra ela. É função dos pais e dos educadores de forma geral, ensinar essa criança a uma forma mais adequada para que sua saúde seja preservada em primeiro lugar.

A formação de hábitos é ainda importante, porque querendo ou não nossos hábitos são formados involuntariamente: Charlotte Mason escreve que somos um pacote de hábitos, que eles governam 99% da nossa vida. Por exemplo, quando acordamos de manhã, não precisamos pensar muito sobre o banho, sobre onde estão nossas roupas, sobre o café. O processo de refletir e tomar decisões é muito cansativo, a vida seria extremamente cansativa se tivéssemos que pensar de forma elaborada em decisões nas mínimas coisas que fazemos. A maioria dessas coisas, acontecem da mesma forma todos os dias, e não precisamos refletir tanto sobre elas, deixando nossa energia para as coisas que realmente exigem nossa capacidade de reflexão mais profunda. Então os hábitos são formados involuntariamente, isso significa que mesmo que você não perceba, ou não pare para pensar sobre isso, está sim ensinando uma forma de dormir ao seu filho. O nosso objetivo aqui não é questionar essa forma, ou dizer que existe uma forma única que funcione para todo mundo, mas estimular a reflexão sobre o que estamos ensinando: Essa forma é a mais adequada para a saúde do meu bebê e da minha família? Que vantagens ela traz ou que prejuízos ela acarreta? Quais os impactos dessa forma no futuro do meu bebê? Considere que você está formando hábitos que podem perdurar por toda a vida, e nisso há uma grande responsabilidade.

Se hábitos são tão importantes, e se o hábito de dormir bem configura um dos principais deles, o que considerar ao ensinar uma criança a ter bons hábitos de sono?

1. Repetição: Charlotte trabalhava com a premissa de que uma ação que nos dispomos a fazer, percorre um caminho neuronal específico no cérebro, através da repetição, esse caminho se torna um hábito, sendo executado de forma automática. Quanto mais repetimos, mais forte esse hábito se torna. Se for repetido sem falhas, crescerá mais rápido. Ou seja, quando o assunto é dormir, determinar uma forma, está convicto dela e executá-la repetida vezes da mesma maneira, comunica para a criança o que pretendemos, o que queremos. Com o passar do tempo, aquela forma de dormir vira um hábito. Quanto mais tempo passar, mais a criança internaliza aquela ação.

2. Paciência, consistência e persistência: Charlotte afirmava ainda que o tato, a vigilância e a persistência são qualidades que a mãe tem que cultivar em si mesma para que a criança adquira o hábito. Isso significa que uma mãe que deseja ensinar um bom hábito ao seu filho, terá que ter trabalho em cultivar bons hábitos em sua própria vida. Agir de forma sensível e prudente, estar vigilante e proporcionando as condições para que aquela criança adquira uma habilidade e, principalmente, ser persistente, pois formação de hábito envolve repetição constante. Isso é algo muito parecido com o que a Eliana Dias coloca em seus webinários e consultorias: Paciência, persistência e consistência durante todo o processo. O ensino de um hábito nunca pode ser uma fonte de conflito entre a mãe e a criança. A mãe não pode estar impaciente, querendo resultados rápidos sem respeitar o tempo da criança, não pode confundi-la sendo firme em um dia e cedendo no outro. Vale a pena pensar que não estamos apenas resolvendo um problema de sono, mas formando hábitos que a criança levará consigo.

Os ganhos quando o bebê aprende uma forma de dormir que respeita sua saúde e a saúde da família vão muito além do que podemos imaginar. Aprender a dormir é uma educação pra vida inteira, faz parte de quem somos, faz parte dos nossos hábitos.

“A mãe que tenta duramente dotar os seus filhos com bons hábitos assegura para si mesma dias suaves e fáceis, enquanto aquela que deixa os seus hábitos tomarem conta de si mesmos tem uma vida cansativa de atrito sem fim com as crianças.” Charlotte Mason.

Ivonete Porto, pedagoga, mãe do Matias e da Lúcia